Não se apavore com o que está acontecendo!
Quando as nuvens ficam negras
Nuvens negras pintam o horizonte. Basta olhar ao nosso redor para perceber que vivemos em um mundo marcado por profundas crises e incertezas. A ideia de uma reversão para um mundo moralmente sadio, economicamente equilibrado, livre da violência, da injustiça e de tantas outras mazelas parece, aos nossos olhos, cada vez mais distante. As notícias chegam diariamente carregadas de conflitos, instabilidade política, dificuldades econômicas, violência e insegurança. Diante de tudo isso, nossa tendência natural é permitir que o medo tome conta do coração. Começamos a imaginar o pior, antecipamos problemas que talvez nunca aconteçam e carregamos hoje o peso de um amanhã que ainda não chegou. A ansiedade nasce, muitas vezes, justamente dessa tentativa de controlar aquilo que está completamente fora do nosso controle. Olhamos para as circunstâncias e esquecemos quem está acima delas.
Todavia, existe uma verdade que a fé cristã precisa aprender a repetir especialmente nos dias difíceis: Deus continua no controle da história. O mundo não está entregue ao acaso, a história não caminha sem direção e os acontecimentos não estão escapando das mãos do Senhor. A providência divina significa precisamente que Deus não apenas criou todas as coisas, mas continua sustentando, governando e conduzindo sua criação de acordo com seus sábios propósitos. Ele conhece o princípio e o fim. Aquilo que para nós parece um emaranhado de acontecimentos desconexos está perfeitamente debaixo do governo daquele que vê a história por inteiro. Deus não é um espectador sentado nas arquibancadas da história; ele é o Senhor da história. Ele está no leme. E, se ele está no leme, podemos atravessar águas profundas sem concluir que o barco está perdido. O mar pode estar revolto, o vento pode ser contrário e as nuvens podem escurecer o céu, mas o nosso Deus não perdeu o controle da embarcação.
Isso não significa que tudo o que acontece seja bom em si mesmo, nem que devamos chamar de vontade de Deus aquilo que as Escrituras claramente condenam. A Bíblia não nos ensina uma espécie de fatalismo cristão, no qual simplesmente cruzamos os braços diante do sofrimento e dizemos: “Era para acontecer”. A doutrina da providência é muito mais profunda e consoladora. Ela nos ensina que Deus é suficientemente soberano para conduzir até mesmo as circunstâncias difíceis para o cumprimento de seus propósitos, sem deixar de ser santo, justo e bom. José pôde olhar para a terrível experiência que sofreu e dizer aos seus irmãos: “Vocês planejaram o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem” (Gn 50.20). Na cruz de Cristo encontramos a expressão máxima dessa verdade: homens agiram com maldade, mas, ao mesmo tempo, Deus estava cumprindo seu plano redentor. O maior ato de injustiça cometido pela humanidade tornou-se, nas mãos de Deus, o caminho para a nossa redenção. Se Deus foi capaz de transformar a cruz em instrumento de salvação, podemos confiar que ele também sabe conduzir as circunstâncias da nossa vida segundo sua sabedoria.
É exatamente nesse contexto que Jesus nos chama a olhar para as aves do céu. Ele diz: “Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura, não valeis vós muito mais do que as aves?” (Mt 6.26). Jesus não está ensinando irresponsabilidade. As aves não ficam paradas esperando que a comida caia do céu; elas procuram alimento. O ensino de Jesus é sobre confiança. As aves não vivem atormentadas pelo amanhã porque não carregam sobre si a pretensão de controlar o futuro. Elas vivem debaixo da providência do Criador. E se Deus sustenta as criaturas que ele mesmo criou, quanto mais cuidará daqueles que foram criados à sua imagem e que, pela graça, foram feitos seus filhos. O argumento de Jesus é simples e poderoso: se o Pai cuida das aves, você pode confiar que ele cuidará de você.
Essa palavra de Jesus precisa alcançar o coração da Igreja especialmente quando atravessamos períodos de instabilidade. Podemos reconhecer a gravidade de uma crise política sem sermos dominados pelo medo político. Podemos reconhecer dificuldades econômicas sem permitir que elas determinem nossa esperança. Podemos denunciar injustiças sem perder a confiança na justiça definitiva de Deus. Podemos reconhecer a violência do mundo sem concluir que Deus abandonou sua criação. A fé cristã não exige que fechemos os olhos para a realidade; exige que olhemos para a realidade a partir da soberania de Deus. O cristão não é aquele que não enxerga as nuvens; é aquele que, mesmo enxergando as nuvens, sabe quem governa acima delas.
Jesus reforça essa verdade em outro momento: “Não se vendem dois pardais por um asse? E nenhum deles cairá em terra sem o consentimento de vosso Pai. E quanto a vós outros, até os cabelos todos da cabeça estão contados. Não temais, pois! Bem mais valeis vós do que muitos pardais” (Mt 10.29-31). É impressionante a intimidade apresentada nessas palavras. O Deus soberano não governa a história de maneira fria e distante. Aquele que sustenta o universo também conhece os detalhes da vida de seus filhos. Até os cabelos da nossa cabeça estão contados. Isso não significa que nenhum sofrimento nos alcançará, que nenhum diagnóstico difícil virá, que nenhuma perda acontecerá ou que nossa vida será protegida de toda adversidade. Jesus nunca prometeu isso. Pelo contrário, ele mesmo advertiu seus discípulos de que enfrentariam tribulações. A promessa é maior: em meio a todas essas coisas, não estamos abandonados.
Precisamos aprender, portanto, a repousar mesmo quando estamos navegando em águas profundas e tempestuosas. Essa talvez seja uma das cenas mais impressionantes dos Evangelhos. Enquanto os discípulos estavam apavorados com a tempestade, Jesus estava dormindo na popa do barco (Mc 4.35-41). O barco estava sendo sacudido pelas ondas, o vento soprava violentamente e os discípulos imaginavam que morreriam, enquanto Jesus descansava. Não era porque ele ignorava a tempestade. Ele simplesmente sabia quem estava no controle. Quando finalmente despertaram Jesus, ele repreendeu o vento e o mar, e tudo se acalmou. Aquele episódio não revela apenas o poder de Cristo sobre a natureza; revela também algo sobre a confiança daquele que sabe que o Pai está no controle. Há momentos em que a maior demonstração de fé não é fazer alguma coisa, mas descansar em Deus enquanto esperamos que ele faça aquilo que somente ele pode fazer.
Davi também aprendeu essa lição ao longo de uma vida marcada por tempestades. Ele conheceu guerras, perseguições, traições, perdas e perigos. Foi rei, mas antes disso foi fugitivo; comandou exércitos, mas também experimentou momentos de profunda solidão. Conheceu a glória dos palácios e a dureza do deserto. E, apesar de tudo isso, pôde declarar: “Em paz me deito e logo pego no sono, porque, Senhor, só tu me fazes repousar em segurança” (Sl 4.8). Observe que Davi não diz que dorme em paz porque todos os seus problemas foram resolvidos. Ele dorme porque sabe em quem colocou sua confiança. Sua segurança não estava na estabilidade das circunstâncias, mas no governo de Deus. Talvez esta seja uma das maiores expressões de maturidade espiritual: conseguir descansar quando ainda existem problemas que não foram solucionados, porque sabemos que Deus continua sendo Deus.
Quando aprendemos a confiar no governo providencial de Deus, aprendemos também a repousar. Quando compreendemos que Deus é o Senhor da história, deixamos de carregar sobre os nossos ombros um peso que nunca foi nosso. Não precisamos controlar tudo, porque não somos Deus. Não precisamos conhecer todos os detalhes do amanhã, porque Deus já está lá. Não precisamos compreender cada acontecimento para confiar naquele que governa todas as coisas com perfeita sabedoria. A fé não significa ter todas as respostas; significa conhecer aquele que possui todas as respostas. É por isso que o salmista consegue dizer: “Ele não permitirá que você tropece; aquele que o protege não dormirá. Certamente, aquele que protege Israel não dorme, nem cochila” (Sl 121.3-4).
Enquanto dormimos, Deus continua vigilante. Enquanto descansamos, ele continua trabalhando. Enquanto não sabemos o que acontecerá amanhã, ele já conhece cada detalhe. Enquanto enxergamos apenas uma pequena parte da história, ele contempla a história inteira. E isso deveria mudar profundamente a maneira como enfrentamos as crises da vida. Podemos trabalhar, planejar, votar, estudar, economizar, tomar precauções, cuidar da família e agir com responsabilidade; mas, depois de fazermos tudo aquilo que nos compete, precisamos aprender a colocar nas mãos de Deus aquilo que jamais esteve nas nossas. Providência não é desculpa para passividade; é fundamento para confiança.
Talvez hoje as nuvens estejam negras. Talvez você esteja olhando para sua vida e não consiga enxergar uma saída. Talvez existam problemas familiares, dificuldades financeiras, incertezas profissionais ou simplesmente aquele sentimento de que o mundo está ficando cada vez mais difícil de compreender. Não permita, porém, que aquilo que você vê seja maior do que aquilo que você sabe. Você sabe que Deus é soberano. Você sabe que ele é bom. Você sabe que ele é fiel. Você sabe que Cristo ressuscitou. Você sabe que nenhuma circunstância poderá separar os filhos de Deus do amor que está em Cristo Jesus. E você sabe que a história não termina nas mãos dos homens, dos governos, dos mercados, das crises ou das tragédias. A história termina nas mãos do Rei.
Por isso, quando as nuvens ficarem negras, olhe para o Senhor. Quando o vento aumentar, confie naquele que está no leme. Quando o futuro parecer incerto, lembre-se de que o futuro nunca foi incerto para Deus. Quando a ansiedade tentar dominar o coração, volte às palavras de Jesus: “Não temais.” Não porque a vida será sempre fácil, mas porque nosso Pai celestial continua cuidando de seus filhos. Não porque todas as tempestades desaparecerão imediatamente, mas porque nenhuma tempestade será capaz de tirar Deus do trono. E, finalmente, não porque sabemos exatamente como cada capítulo será escrito, mas porque sabemos quem escreveu a história e sabemos que, no final, todas as coisas serão conduzidas para a glória de Deus.
Quem não confia na providência de Deus nunca aprende verdadeiramente a descansar. Mas quem conhece o Deus que governa todas as coisas pode deitar-se em paz, mesmo quando ainda existem tempestades do lado de fora.
As nuvens podem ser negras.
O mar pode estar revolto.
O mundo pode parecer fora de controle.
Mas Deus não está.
Ele continua no leme.
E, por isso, podemos descansar.